Crônicas

Desilusão

Normalmente a desilusão é tratada na música como algo triste. De fato, perceber algo diferente daquilo que se imaginava ou gostaria não é gostoso.

Apaixonar por alguém e perceber que a pessoa não está tão a fim quanto você, é chato. Pensar em uma festa, esperar semanas por ela, chegar e ver que estar dormindo seria uma melhor opção, é chato. Sonhar com um festival e ver que bem era tão legal afinal é, também, chato.

Em tempos superlativos, parece também que tudo precisa ser mais do que de fato é.

Criamos grandes cenas e ao nos depararmos com a realidade, vemos que é menos do que pensamos. O problema está na distorção em relação ao real com um quesito: o real nos apresenta menos do que desejamos.

Por exemplo, esses dias a Rita Wainer estava pintando a parede da Casa Baixo Augusta e publicou no Instagram que estaria aberto para quem quisesse ver. Não falava em oficina, não falava em workshop. Estávamos em poucos ali, quando chegou um rapaz e falou:

– Nossa, achei que seria uma galera e que voce faria uma palestra.

Somos vítimas de nossa própria imaginação, que é capaz de preencher espaços sequer disponíveis da realidade. Elimina mesmo os fatos já dados. E mergulhamos em coisas que não estão lá.

Pouco sei sobre a ilusão e o real. Nesse aprendizado sobre eliminar a distorção, coleciono a lição de que colocar ideias em prática me conduz a um espaço de aceitação e gestão de arestas desviantes.

Uma atitude de “ok, não foi bem assim que pensei, mas como posso melhorar isso que apareceu?” facilita a vida e te deixa com uma postura mais aberta a vivenciar coisas novas. Menos expectativas e mais “vou ver qual é” me ajudaram a fazer mais. Afinal, quando não se espera nada se pode viver tudo.

Sobra menos tempo pro mimimi e a gente se recupera mais rápido de qualquer desilusão. Até mesmo quando assunto é coração. Passa pra próxima, não perde muito tempo lamentando. Percebe que as histórias que criamos são lindas, mas podem ser uma ilusão.

Se desiludir é ver as coisas como elas de fato são, creio que seja no campo da experiência o que acontece com a visão: tem uma hora em que não adianta mais espremer o olho.

Colocar o óculos é estranho, mas se percebe um mundo novo.

Talvez as coisas sejam apenas coisas; momentos apenas momentos. Talvez um dia voce tenha perdido suas lentes coloridas ou errado no grau.

Mas há um dia, perdido entre tantos outros, em que você percebe que a visão confortável é aquela sem distorções.

Está tudo bem.

Ligia Tosetto do Prado

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