Crônicas

Livia dos Gigantes 

Há dias em que a partida do ônibus é certa, mas a sua…bom, a sua requer um pouco de adrenalina e reza forte. Dia desses entrei no ônibus naqueles cinco minutos extras que a sorte lhe concede…

Fato ou acaso, no meu banco sentava feliz e contente um pequeno ser, com blusa amarela e cabelo preso em duas chuquinhas. A mãe sentava ao lado e pedi que disponibilizasse o assento. A menina ficou brava, esperneou e até derrubou o Milk Shake de chocolate na roupa. Contrariada, sentou no colo da mãe, olhou pra mim e disse:

– Não gosto de você!

Ri e comecei a me ajeitar para dormir.

Mas criança é mesmo um ser abençoado pela dádiva do esquecimento. Dois minutos depois e ela já estava sutilmente encostando os dedos no meu rosto, na tentativa de me acordar. Abri os olhos, ela sorriu e logo começou:

-Qual o seu nome?

-Ligia e o seu?

Ao ouvir a resposta, ela soltou aquela risada gostosa que só criança sabe dar e falou:

-Nosso nome é parecido. Sou Livia! Como soletra seu nome?

Daí em diante, seus olhos de jabuticaba e sua fala doce me conduziram ao mundo dos gigantes que não podem ser acordados, dos amigos que apesar de não vistos dividem mais histórias que qualquer coleguinha da escola, da solitária saga do sabugo de milho na embalagem de salgadinho e demais mundos distantes. Em meio à conversa, um conselho para a vida:

– Nunca se esqueça de andar na pontinha dos pés!

– Na ponta dos pés? – pergunto, numa mistura de curiosidade e confusão.

– É! Pra não acordar os gigantes! – respondeu ela séria, enquanto olhava para o céu.

Como num sonho, ela circulava por esse mundo de fantasia e realidade, logo esquecendo que algumas histórias já haviam sido vividas e contadas. Até serem recontadas. Livia me conduziu de volta àquele mundo de estórias que nós adultos esquecemos; o dom de transformar uma embalagem numa grande aventura.

Livia não queria dormir, a vida pela janela parecia tomá-la por deslumbre. Ao quase cochilar, seu rosto recaiu em meus braços.

De início, fora seu maior desafeto do momento. Quase ao final de nosso tempo juntas, um abraço terno e um sincero “eu gosto muito de você” me são concedidos como presente de um presente tão presente.

Ao chegar ao meu destino, ela -que em seus dez anos de vida já sabia mais que todos nós sobre a despedida- simplesmente me olhou nos olhos e, sem pestanejar, disse:

– Tchau!

 

pedre
Meu grande amigo Pedro ❤

Deixe sua marca por aqui! Adoraria ouvir o que você tem a dizer!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s