Crônicas

2006

 

ligia
Esse ano eu assisti uma peça em que um menino, vítima da guerra civil na Líbia, perdeu grande parte de suas habilidades cognitivas. Ele, agora um homem de cerca de 50 anos e ator da peça, narrava sua história.

Uma das partes que me chamou atenção foi a da fotografia. Ele mostrava uma série de fotos de sua infância e dizia:

– Eu não conseguia entender como aquela pessoa naquele pedaço de papel era eu. Como uma representação de qualquer objeto tinha uma necessária correspondência com o objeto. Isso não fazia sentido pra mim. Eu tive que reaprender. Como muitas coisas desde então…

A fala me marcou profundamente.

Hoje, ao liberar espaço em gavetas e prateleiras, me deparei com algumas fotos. Quantas de mim que já nem sao eu…

Encontrei cartas, medalhas de campeonatos vencidos, crachás de festivais de dança, pastas de partituras para teclado e da época de tenista, diplomas dos mais variados cursos, livros e até a pasta de fã da Britney Spears. Rs Tudo isso me fez questionar se um dia eu cheguei a ser algo disso. Todos gostos, mas onde está a pessoa?

Abri a caixinha de Pandora da minha vida. E pensei: eu tenho apenas 26 anos, mas foram tantas as Ligias que viveram… Nessa viagem pelo passado, encontrei muitas de mim esquecidas. Recordei algumas outras. Aprendi a deixar ir outras. Vi como em tão pouco tempo de vida já me identifiquei com tantas coisas. Algumas ainda fazem sentido e outras eu sequer reconheço.

Ri de muita coisa mas também chorei com outras. O mais engraçado de tudo isso foi ir aos prantos na caixa onde estavam as minhas melhores memórias. Logo percebi que, às vezes, voltar a um passado de extrema felicidade dói mais que lembrar uma tristeza superada.

O retrato mudou. São tantos os rostos e formas que assumi ao longo dos anos. Muitas vezes penso que é o grande espírito a brincar de si mesmo, nos mostrando suas diversas faces pelas próprias faces que nós somos capazes de assumir. Podemos não vê-lo, mas assumimos todas as possíveis formas da mais pura alegria e do mais triste sofrimento.

Afinal, a vida é essa grande caminhada entre a dor e o amor.

 

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