Divagações

Era pra ser

No final de semana, conversava com uns amigos sobre esse livro do Saramago chamado Intermitencias da Morte. Demorei uns dois anos desde que comprei para conseguir ler inteiro. Meu pai, quando me visitava sempre via o livro na cabeceira e dizia:

– Ainda? – com um tom altamente sarcástico e una risadinha.

Demorei para embarcar, mas quando entrei, devorei. O livro traz a hipótese de uma cidade onde a morte deixou de existir. É , ninguém morre mais. O que inicialmente poderia parecer uma grande maravilha, passado o furor da comemoração, torna-se um caos. Tráfico de pessoas à beira da morte para o outro lado da fronteira para que finalmente possam descansar e epopeias políticas são dois exemplos dos dramas que passam a abater a população da cidade.

Eu adoro esse livro. Traz uma reflexao incrivel sobre o que acreditamos ser o maior medo do ser humano.(Hoje eu estou superlativa, nao reparem). Fui procurar uma frasezinha pra compartilhar, daquelas de guardar no cantinho da alma e pra minha decepção percebi: não há frases de efeito sem que se conheça o contexto em que foram escritas.

Ontem, num evento sobre psicanálise, o palestrante disse que as frases de efeito trazem uma armadilha: como, em geral, não lemos as obras dos principais pensadores, estamos sujeitos a acreditar que determinada frase postada na rede pertenceu de fato a Platão, por exemplo. Sabemos pouco e aceitamos tudo.

A conversa vai longe, mas desses dois fatos aparentemente (des)conexos trago duas reflexões também (des)conexas.

A primeira é: depois da conversa do final de semana, eu fiquei pensando sobre a morte. Percebi que guardamos conteúdos dentro de nós e continuamos a digeri-los mesmo depois do acontecido. Ah, vá?! Rs

Queria escrever algo diferente da morte, mas percebi que pensar é como digerir, se você não conclui o que começou nem adianta começar outra coisa. Só vai trazer indigestão. Quem já tentou esquecer alguém e percebeu que o ser humano só aparece mais e mais na sua mente sabe do que eu estou falando. Tentar nao pensar em algo é a forma mais eficaz de trazê- lo a superfície. Então, cá estou.

A segunda é: você é capaz de criar conexão entre tudo o que acontece no seu dia a dia, basta começar a refletir a respeito, conferindo aos fatos alguma importância interna.

Ou seja, tudo está conectado desde que haja um observador capaz de conectar fatos aparentemente isolados. Somos tecedores de nossas próprias histórias, enlaçamos pessoas e acontecimentos e criamos enredos todos os dias. Nós sempre escolhemos as melhores aventuras e histórias de amor para contar aos nossos amigos e, no fim, dizer: era pra ser.

Claro que era! Rs

Foto: https://www.facebook.com/arpilleras/photos/a.1406138976361859.1073741830.1400210153621408/1406138799695210/?type=3&theater

arpilleras
Falando sobre tecer a vida, a Arpillera é uma técnica de bordado utilizada por mulheres chilenas para denunciar as violações cometidas pela ditadura militar no país. Esta arpillera aborda o tema da perda da convivência, dos laços da comunidade, representando fisicamente o antes e o depois da vinda da barragem. De um lado a comunidade unida, as árvores em pé e as casas coloridas e variadas. O projeto da barragem é representado por tratores com fome, de boca aberta. Depois da barragem os laços comunitários tem se perdido, as casas são todas iguais e cinzas e a Maria está gravida, sozinha, preocupada porque o trabalhador com quem engravidou foi embora.

 

 

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