Intercâmbio

Na selva dos fortes, somos todos leões

Desde muito cedo nos é ensinado a ser fortes.

Na escolinha, aprendemos a lei da selva: seja o leão ou amargue o destino das hienas ou qualquer animal subalterno. Urre, avance, empurre. “Não deixe que o amiguinho te faça mal” – dizem nossos pais, preocupados com as indefesas pequenas ovelhas do rebanho. Mas a ordem nunca questiona que a aparente inocência da ovelha esconde, também, o leão, o lobo e todos os possíveis animais selvagens. É, na floresta da vida somos todos caça e caçador.

Avançando na vida, na adolescência a corrida da vida animal já te mostra que seu nome deverá figurar em muitas listas: vestibular, concursos e (por que não) loteria. Coloque seu nome em destaque e suba alguns degraus na pirâmide alimentar. Já se perguntou em quantas listas já te disseram que você deveria estar? (E não basta estar, tem que ter uma estrela dourada bem no topo!). E na busca pelo destaque, ao menor sinal de descanso ou prazer, já vem a voz da sabedoria: “Você deveria se esforçar mais. O fulano ali do lado não parou sequer para respirar.”

Está feito: criamos no futuro adulto confuso a semente da culpa. E essa, ah, essa semente! Essa será regada até o fim da vida. E como ela cresce… Agora sim, temos um leão, correndo na e contra toda a selva, regando sua sementinha da culpa! Parece muito trabalho para o pobre do leão.

Mas o rei precisa,também, sorrir e se dizer satisfeito com a vida que lhe disseram certa. Agradecer por poder correr atrás de sonhos que lhe disseram seus. Foi assumido na posição do mais forte e sequer notou.

Cansado de tanto correr, o leão pára por alguns segundos e olha todos os demais animais felizes e risonhos com o restante da selva, festejando momentos que ele, já tão imerso na pressa, sequer conseguia apreciar sem se recordar da culpa que trazia junto aos braços. O leão chora. Um choro sofrido e longo. Abraça sua dor e não demora a derrubar a semente da culpa à que tanto se apegara. Ela não cabia mais em seus braços. Como aquela selva tão verde havia, de repente, se tornado tão cinza? Demorou um certo tempo até que o cansaço passasse e o leão, aos poucos, se acalmasse. A selva retoma a cor, o ar circula por todo o seu corpo. Alguns animais oferecem ajuda àquele pobre leão que, pela primeira vez, mostrava-se frágil.  Ele se assusta. Percebe que ninguém condena seu pranto e que seu choro é, em verdade, bem recebido: “O leão também sente como a gente; só estava com medo de admitir.” – ouve um pássaro cantar.

E, finalmente, o leão percebe que das tantas lições que a selva havia lhe ensinado, essa era a mais valiosa: ser fraco é, também, ser forte.

 

um comentário

  1. Fantástico seu texto! Como dizem, devemos ser sempre fortes. Mas o que muitos esquecem é que vez ou outra, nós também precisamos ser fracos – não só para reconhecer o que significa ser forte, como também para poder apreciar essa tal diferença. Ser sempre forte significa não ser forte nunca, afinal o que é algo sempre, na verdade, não é nada… nunca.

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