Intercâmbio

O retorno (I): Entre chegar e partir…

Ainda mais irreal que a partida, é a iminência do retorno. Abandonar tudo o que é conhecido em busca de algo (muitas vezes nem sabido) parece loucura. Mas a verdade é que, com o passar do tempo, loucura passa a ser voltar ao ponto de partida. É difícil acreditar que uma vida que um dia foi ideal se tornou a sua realidade. Você se suspendeu no tempo até o dia em que ele bateu à sua porta: a contagem agora é regressiva! A perspectiva de voltar para vida que antes era tão real se torna, então, surreal. Deixar a Croácia parece trazer, novamente, a sensação de pisar no (des)conhecido.

Mergulha-se num limbo entre o que foi, o que é e o que será. Vem à tona um turbilhão de emoções. É um misto de incredulidade, melancolia e alegria. Incredulidade em tudo que se viveu; incredulidade que o tempo, realmente, passou. Incredulidade em se ver como um local tão distante te fez sentir tão você.  Melancolia pela saudade que sempre esteve presente, rondando cada momento e tornando tudo ainda mais intenso. Saudade que se intensificou quando tudo deixou de ser o primeiro e passou a ser o último; quando a contagem passou a ser regressiva e não mais, progressiva. Ainda lembro o dia em que quase chorei na frente do meu professor, depois de um exame, ao ser perguntada quanto tempo eu ainda tinha: uma semana! Junto a tudo isso, uma imensa alegria e gratidão por ter vivido o melhor contexto da vida (até então).

Em um dia se é capaz de passar da negação à rendição ao destino, numa mistura de riso e lágrima. Não há coração que aguente. Concentração para provas e trabalhos parece um esforço sobre-humano. Dormir já não existe mais. É quando se buscam consolos e pensamentos que te tragam o entendimento do fim. Minha amiga Jéssica, que voltara um mês antes, trouxe uma mensagem que me sustentou ao longo desse difícil processo de aceitação do fim. Ela, que morou em Grenoble, em França, e esquiava, dizia: quando me vinha a tristeza, eu olhava para a montanha e agradecia. Agradecia por ter sido possível viver tudo isso; agradecia pela história que escrevi.

A mensagem da Jé,  dias depois, ganhou trilha sonora. E me trouxe a paz necessária para voltar.  O Fefê, meu amigo-irmão, num dos gloriosos dias de aulas em Zagreb, me mostrou a música Amar La Trama, de Jorge Dexler. Achei a música bonita, mas ficou esquecida. Coincidência ou não, quando ele já havia partido e minha partida também se aproximava, em meio a melancolia das últimas paisagens, toquei a música.  Uma das frases da música trouxe exatamente a mensagem que eu precisava e se tornou a trilha sonora das últimas caminhadas – a passos nunca antes tão lentos- pela minha querida Zagreb: “Amar la trama más que el desenlace.” Apesar de (ou por causa de- não seria amor o que sentia por aquele contexto da vida?) falar do amor romântico, a música caiu como uma luva.  Com um ritmo leve, a música tornou qualquer melancolia em redenção:  eu escrevi e  amei  a minha história com todas as  minhas forças; eu coloquei minha alma em todos os passos que dei. Como toda história, ela também chegava ao fim. Fim este que não deveria jamais ter menos valor que toda a trajetória. Fim esse necessário a construir uma nova história e reinventar a vida. Que será linda demais!

(Continua…)

Aeroporto de Zagreb
Volta-se ao ponto de partida. Mas o eu que vai, já não é o mesmo que veio.

7 comentários

  1. E agora abro esta caixa de comentário e me pego pensando no que escrever… tanto que há de se dizer, mas como escolher as melhores palavras? De um texto seu, fui a outro e a outro… li de cima a baixo, em ordem anti-cronológica; e depois fiz o oposto, e voltei… e cheguei aqui. E me encontrei. Vi o reflexo da minha vida em suas palavras. Pensei no ir, no voltar, no ficar e no deixar. Pensei em como tudo aconteceu, no tempo que passou; pensei no medo, nas alegrias, nas tristezas, nos desafios, nas conquistas, no novo, no antigo, nas vitórias, na vida… Já fazem quase três anos que deixei meu país pela primeira vez (e pouco mais de meio ano, pela segunda), mas ainda parece que foi ontem. No primeiro mês, pensava ser uma grande aventura de um mês; no primeiro ano pensava ser uma grande aventura de um ano… e assim continua, três anos… ou muitos mais que virão. Conceber que nossa vida continua à partir de uma conquista só abre espaço para muitas novas. Pois cada vez percebemos como é a nossa tragetória e como ela tem sido até aqui – o quanto aprendemos com ela e o quanto ainda temos a viver. O poeta C V Cavafy já bem o dizia em “Ithaca”, o que importa de verdade é a nossa jornada, e não o destino. Então vivemos o momento, vivemos a aventura. De onde estive, para onde estou, para onde irei; não sei mais… um dia descobrirei…

  2. A volta é a pior e a melhor parte de todos que voltam ao seu país depois de um tempo morando fora. Uma mistura de tudo junto, sentimentos encontrados. hehehe…
    Muito bom seu texto. Parabéns!

Deixe sua marca por aqui! Adoraria ouvir o que você tem a dizer!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s