Intercâmbio

Sobre a felicidade: os seis primeiros meses da jornada…

Quando as primeiras linhas desse blog começavam a ser escritas, era tempo de pressa. Chegava à Croácia com pressa de viver, pressa de conhecer, pressa de tirar do intercâmbio até o último suspiro. De visitas à museus às primeiras festas, tudo parecia acontecer rápido demais e, principalmente, desesperado demais. Tudo era novo: ambiente (os dias de neve que o diga), pessoas, comida, moeda, idioma; tudo precisava ser explorado e, sobretudo, aproveitado.

Conheci pessoas incríveis, ouvi milhões de histórias; ri, chorei, sorri até doer o rosto e aprendi. Aprendi o quanto ainda tenho a aprender.

Fiz parte de um grupo de amigos com pessoas de 7 diferentes nacionalidades, em que a regra era uma só: rir até chorar; fiz as viagens mais divertidas e, ao mesmo tempo, mais estressantes; colecionei músicas, frases engraçadas, momentos de pura e verdadeira felicidade; percebi o quanto podemos ser parecidos, mesmo vindo de países tão diferentes. Vi que sempre pode haver alguém mais azarado que você e, mesmo assim, mais otimista que você; aprendi que conhecer a história de alguém pode mudar sua forma de ver e agir com essa pessoa; constatei que, realmente: você atrai o que transmite!

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Descobri o quanto uma mochila nas costas e um destino em mente – mesmo que incerto às vezes- são capazes de trazer felicidade: fiz as primeiras viagens e alimentei a sede de ver o mundo! Estive em 8 países (Portugal, Italia, Slovenia, Slovakia, Austria, Hungria, Bosnia, Montenegro);

Zabjliak - Montenegro
Zabjliak – Montenegro

Viajei por impulso, fiz as conexões mais sem sentido do mundo (Porto-Liverpool (sem visitar a cidade)-Croácia), aderi ao eterno caso de amor e ódio com a Ryanair, perdi vôo, aprendi que jeitinho brasileiro não existe em aeroporto nas gringa; visitei meus amigos; colecionei aeroportos e redes de fast food onde dormi (McDonalds e Starbucks carimbados)!

Sofá do Starbucks - Frankfurt
Meu cantinho no Starbucks – Aeroporto de Frankurt

Claro, conferi nova estampa ao meu passaporte, agora tão cheio de lugares; me apaixonei pelo litoral da croácia e pelas ilhas;

Dubrovnik - Croácia
Dubrovnik – Croácia

Descobri que amizades podem começar com uma conversa no ônibus e que Montenegro, definitivamente, é um país a ser explorado;

Kotor - Montenegro
Kotor – Montenegro
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Kotor – Montenegro

Me acostumei com um estilo de vida onde o café com os amigos e sentar no banco da pracinha com os brasileiros filhinho da mamãe e fiilhinho da vovó vêm antes de qualquer obrigação; cantar música brasileira na Main Square é sucesso!; reconheci o quanto o humor brasileiro ganha disparado de qualquer outro;

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Brasileirada em Zagreb

Aprendi que dobro é a resposta para qualquer pergunta; aceitei que tecnologia por aqui ainda demora a chegar: o visto é escrito à mão; notas da faculdade são lançadas em livro e escritas no “boletim”; reserva de tickets de ônibus na internet é algo longe de acontecer; passei a aceitar o novo – e, muitas vezes, estranho- com uma simples frase em mente “That’s Croatia”.

Visto de Permanência na Croácia: escrito à mão, mesmo quando já na UE!

Finalmente, consegui me apaixonar todos os dias por um mesmo lugar: Zagreb!

É verdade que o tempo da novidade passou e logo veio a rotina. Ver as pessoas no dormitório. Ir para a faculdade; sofrer com exames e apresentações. Enfrentar o desafio de apresentar o Mensalão para uma sala lotada e para um professor que tem o inglês como língua materna.  Rezar para passar e celebrar com os amigos. Conciliar a ânsia de explorar o velho mundo e, principalmente os Balcãs (região em que a Croácia se encontra), e os estudos.

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Apresentação do Mensalão: tremendo na base!

Oh, viver, viver, viver…

Eu e todos aqueles que dividiram comigo esses dias gloriosos criamos nossa rotina e acreditamos que iria durar para sempre. Viveríamos nesse mundo surreal de Erasmus, sorriríamos e viajaríamos para sempre. Bom, não tão assim.

A verdade é que se ontem o tempo era de pressa, os últimos dias dessa primeira fase do intercâmbio é a do tempo que se arrasta – ou que tentamos arrastar.

Se ontem vivíamos como quem tem pressa, nos últimos dias andávamos devagar, com passos lentos e curtos (na verdade, pra mim, os passos curtos são sempre uma constante) de quem tenta enganar o tempo – que corre!

Desde ir ao café até – claro – o dia do adeus, fizemos tudo com o silêncio de quem já sofria  e devagar como se tivéssemos todo o tempo do mundo -para não dizer adeus. Tudo passou a ser o último: café, festa, dia preguiçoso, dia no lago, dia no dormitório, dia no parque, jantar no menza (foto).  Todas as conversas passaram a ser permeadas não mais de planos para os próximos dias, mas de lembranças dos últimos dias.

Menza: 5 kuna, muito sal e muita fritura!
Menza: 5 kuna, muito sal e muita fritura!

A verdade é que os primeiros viajantes dessa grande jornada, pouco a pouco se foram, em meio à lágrimas e sorrisos, com a promessa de um reencontro.  A cidade passou a ter um ar melancólico, os encontros com aqueles que ainda permanecem, passaram a ter o silêncio como convidado.

É tempo do adeus e a verdade é que ele, apesar de esperado, veio rápido demais. Todo dia é dia não de conhecer, mas de despedir.

Pra mim, que fico, a cada lugar uma lembrança dos momentos que vivi e das pessoas que conheci.

Tentando fugir um pouco dessa saudade, decidi voltar para uma ilha (Korcula) maravilhosa, onde havia passado uns dias com uma amiga – em uma das melhores viagens que já fiz. A ideia: trabalhar em um hostel! O que poderia ser mais perfeito que voltar pra um lugar lindo como esse?:

Korcula
Korcula

E, de novo, as lembranças. O lugar é paradisíaco, as praias são lindas, tudo lindo, mas…não estou mais tão feliz como da primeira vez.

O caminho até a cidade antiga parece maior, a praia parece meio monótona, o mesmo sanduiche com cream cheese não é mais tão engraçado, o sorvete de chocolate amargo já não tem mais o mesmo sabor.

A verdade é que  Korcula já não tem o mesmo brilho, assim como Zagreb passou a ser melancólica. Em um desses dias monótonos na praia (foto aacima), tirei um tempo pra pensar. As cidades não mudaram, continuam lá, recebendo pessoas, perdendo outras. O que muda?   A resposta é quase que instantânea:

“Happiness is only real when shared!” – Chris McCandless (retirada do filme Into the Wild)

É engraçado como essa frase, que tanto me marcou um ano antes de viajar, quando assisti ao filme Into the Wild ( inspirado na vida de Chris McCandless, um homem que abdicou de tudo para viver no meio da floresta) venha agora a fazer ainda mais sentido. É certo que minha jornada, tirando a parte de largar tudo e se jogar no desconhecido, pouco tem a ver com a jornada de Chris. Meu perrengue é morar em Cvjetno, comer no menza, dormir em aeroporto de vez em quando, enfrentar um Hostel sujo, e por aí vai…

Mas, de todo modo – voltando ao assunto – sharing é o que faz Caçapava, essa cidadezinha tão pequena no interior de São Paulo, ser tão importante pra mim: família e amigos; é isso que faz Curitiba um lugar a se lembrar, com todos os poréns que sempre faço questão de pontuar: amigos; é isso que faz Taubaté e Tremembé tão importantes: amigos; Zagreb, Korcula e todos os lugares do mundo onde eu vá: pessoas que de alguma forma se fizeram especiais e tornaram o lugar especial! Pessoas que dividiram comigo a felicidade de viver!

E essa é uma das lições que eu vou levar pra toda a minha vida…

7 comentários

  1. Lígia, você me fez chorar. Descreveu tão bem o que senti, aos 66 anos, na minha primeira excursão a Portugal e Espanha. Admiro sua coragem. Tive a chance de ir pra um intercâmbio aos 15 anos, mas não tive coragem. Agora é tarde. Tomara que mais e mais jovens de hoje sigam seu exemplo. Um beijo.

    1. Suzette, seu comentário me comoveu e me fez sorrir de orelha a orelha. Tão bom ouvir experiências desse tipo. Você é a prova de que nunca é tarde para se perder e se aventurar pelo mundo e pela vida! Seguirei seus passos! 🙂 Obrigada por dividir essa história por aqui!

  2. Demais. Só demais! Muito demais!
    E o outono vai trazer muitos posts mais; o ciclo logo recomeça pra gente – e bem logo, também, se acaba “de verdade”… Mais antes disso a gente vai ter que viajar mais, conhecer mais gente, sentar mais na pracinha, estudar mais (!!!), fazer mais das melhores apresentações, rerrezar mais pra passar, rir mais, se despedir, chorar…

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