Intercâmbio

Croácia x Sérvia: muito além de uma simples partida de futebol!

O ano era 1991. Eu passava a ser apenas uma iniciante nessa aventura chamada vida, quando a Croácia iniciava um dos capítulos mais dolorosos de sua história: a guerra pela independência em relação à antiga Ioguslávia! Ainda estávamos longe de nos encontrar; esse País ainda estava há milhares de kilômetros e, talvez, ainda mais distante em pensamento; finalmente, ainda estava  longe de me mostrar o que é viver um sonho e contar uma bela história.

Dia 22 de Março de 2013, poucos dias após meu aniversário de 22 anos, ocorreu ma partida de futebol histórica: Croácia x Sérvia! Coincidência ou não, eu estava presente, junto com muitos croatas, torcendo, gritando e cantando palavras que eu mal sabia pronunciar. É, as feridas da guerra pela independência da Croácia, nesse dia, repercutiram em mim. Como não se envolver?

Para começo de história, o jogo ocorreu no Estádio Maksimir, aqui em Zagreb:

Retirada de http://www.gnkdinamo.hr

Com um pequeno detalhe: o estádio estava lotado – só de torcida Croata!

Foto de Andrea Marea

Sem torcida rival no estádio, sem torcida rival na rua. Imagine um clássico Corinthians x Palmeiras, só com uma das torcidas lotando o estádio! Sem alguém para retribuir as palavras de carinho (cof! cof!), os hinos cantados com tanto orgulho. Fato é que, por motivos de segurança, sérvios e croatas assisitiram ao jogo em seus próprios países, separados pela grande rusga da guerra, que, nesse dia, pulsava e, talvez, aumentava.

Eu estou totalmente fora do mundo. Não tenho televisão, não leio notícias (como dizemos aqui: shame on me, eu sei!). Mas, para aqueles que estão “antenados” no mundo, principalmente aqui, em Zagreb, o jogo é divulgado, comentado e saturado pela televisão, rádio, jornais e todos os meios de comunicação possíveis. Na semana do jogo, indo esperar o tram na estação, deparei-me com esta grande camisa do time croata,  num dos maiores prédios perto de onde moro:

Foto de Andrea Marea
Foto de Andrea Marea

Para bem entender a dimensão desse jogo, que, no fim das contas, envolvia mais uma cicatriz que está longe de cicatrizar que, realmente, um encontro de times rivais, é necessário voltar (ainda mais) no tempo e fazer uma pequena digressão na história.

Para longe de querer dar uma aula de história (Mestre Google ‘taí’ pra isso), em extremíssima simplificação dos fatos, o que importa  é que a Croácia, juntamente com Sérvia, Montenegro, Bósnia e Herzegovina, Macedônia e Eslovênia compunham a República Iogulávia, à época em que foi adotado o comunismo (após a II Guerra Mundial). Diante dos inúmeros conflitos políticos e territoriais, principalmente no que diz respeito ao regime de governo a ser adotado (com a Croácia e a Eslovênia suportando a democracia); anos de repressão; finalmente, em 1991, a Croácia resolveu declarar sua independência. Mas a história estava apenas começando…A República Iogusláva, principalmente a Sérvia, que tinha população dispersa pelo território croata, estava longe de aceitar essa separação. Os sérvios que aqui viviam, principalmente à leste do País, chegaram, inclusive, a declarar uma República da Sérvia, dentro do território croata. Dito isto, não é preciso muito para prever que se instaurou uma guerra, que durou até 1995, com a vitória croata, não sem muitos traumas e rancor. A Sérvia chegou a invadir quase todo o território croata, sem alcançar a Ístria (aquela pontinha à oeste do País, no mapa abaixo – onde minha roomie nasceu e cresceu).

mapa
Fonte: Wikipedia

Como sempre, os relatos são tendenciosos e, de tudo o que se houve, só se pode apegar à emoção de quem conta os fatos (não a internet, mas pessoas que, direta ou indiretamente, viveram esse conflito). A guerra é assunto delicado e, sempre que vem à tona, traz uma tensão à conversa, de modo que, até entre os croatas, a opinião sobre a guerra é capaz de trazer muita discórdia.

Aqueles que tiveram suas cidades invadidas e parentes que se juntaram ao exército e, de alguma forma, carregam alguma lembrança da guerra, nutrem um grande ódio pelos sérvios.  Por outro lado, minha roomie que, como disse, é da Ístria (extremo oeste do País), defende que não nutre ódio algum pelos sérvios e que já é hora de passar uma borracha no passado. Ela não foi ao jogo. Justificou dizendo que é apenas um motivo para xingar os sérvios e relembrar a guerra. Ivan, o primeiro croata que conheci aqui, acabou por me dizer o mesmo e falou não estar interessado no jogo. A verdade é que, talvez, eles sejam poucos que pensam assim. Digo isso porque fui conferir de perto o sentimento de estar em meio à esse momento histórico.

Dois antigos rivais de guerra em campo. E, uma coisa, eu sei: o clima era de guerra!  A cidade transpirava esse jogo: trânsito parado, pessoas vestidas da cabeça aos pés com as cores do time (vermelho, branco e azul). Era como a final da Copa do Mundo, com uma pitada de sangue no olho.

Fomos à rua principal, Trg bana Jelačića, onde havia um não-tão-grande telão para assistir o jogo.

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Amendoins sendo distribuidos, cerveja sendo vendida nas Tsak (banca de revista que só não vende a mãe porque é proibido), bonecos de posto, bandeiras e brincos com a bandeira croata brilhando.

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Tudo era uma grande festa, tudo era uma grande tensão.

O jogo começou com um problema: o telão, nos primeiros 3 minutos de jogo, não funcinou! HAHA. É irônico, mas, nem num dos dias mais importantes para a maioria croata as coisas aqui funcionam de primeira.

Não muito tempo depois, o time croata traria um dos momentos mais emocionantes desde que cheguei aqui: os dois gols que nos (quando vi, tinha escrito ‘nos’ – incrível como, em tão pouco tempo, abraçamos uma cidade que tão pouco nos conhece, e que tão pouco conhecemos) deu a vitória. O céu, nesses dois gols, se tornou vermelho; o som passou a ser um só, com o hino croata, num só tom. Arrepio, arrepio!

Jogadores se abraçando,  em campo; a fumaça vermelha começando, na Avenida Principal de Zagreb.
Jogadores se abraçando, em campo; a fumaça vermelha começando, na Avenida Principal de Zagreb.

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E o fato de eu ter escrito “nos” retrata justamente o sentimento que me invadiu nesse momento: o amor pela nação, a necessidade de se afirmar e bradar com todo orgulho o lugar de onde você pertence. Apesar de ser um dia croata, não pude deixar de lembrar do Brasil.

Digo isso porque, por aqui, a cada dia mais tenho orgulho de dizer, quando perguntada, que sou BRASILEIRA, apesar de nutrir esse carinho pela Croácia, que tanta felicidade tem me trazido. Por isso, nesse dia, de certa maneira, pude compreender um pouquinho da dor croata em relação à guerra e à necessidade de, mesmo em apenas um jogo de futebol, manifestar o orgulho pela sua nação. Como poderia ser diferente? Eu, em conversas bobas, de vez em quando começo a enumerar elogios à terrinha verde e amarela!

Voltando ao jogo, no final, clima de muita alegria. Alegria essa que até nos rendeu uma foto com os policiais de força tática que, simpaticamente, se ofereceram para figurar na foto com “as gringa”, ao invés de serem só plano de fundo.

Detalhe para um ponto brilhante na minha orelha: comprei, por 5 kuna, o brinco com a bandeira croata brilhando! x)
Detalhe para um ponto brilhante na minha orelha: comprei, por 5 kuna, o brinco com a bandeira croata brilhando! x)

No fim do dia, pra variar, o sorriso me acompanhava, juntamente com minha amiga Giedré e, claro, a bandeira do País que tanto tem me feito refletir, viver e aprender!

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Para além da foto, o desejo de que a Croácia e a Sérvia superem essa rusga, mesmo sabendo que isso levará tempo. Para agora, a lembrança de um dos dias mais incríveis da minha vida!

6 comentários

  1. uuuuuau, que top =D gostei muito do texto, ainda não fiz, mas estou planejando meu primeiro intercâmbio e posso dizer que o seu blog tem me motivado cada vez mais, ainda nem comecei mas já não pretendo nunca parar hahahaha obrigado por essa história, é um grande aprendizado, espero viver momentos tão bons quanto os seus!

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