Intercâmbio

Sobre se perder para se encontrar…

Eu sei, em português, talvez, essa frase não faça muito sentido ou, ainda, beire o óbvio! Gramaticalmente, ela já começa errada. Mas, se fosse seguir as regras gramaticais, faria ainda menos sentido. Vou contar (mais) essa história e espero que vocês me entendam!

Bom, depois da festa à fantasia do Hostel (veja o post anterior), algumas cervejas eu, finalmente, fui dormir! Eu deveria (é, deveria) acordar cedo, tomar café da manhã (que era incluso na diária) e ir até Cvjetno studenski dom (nome da casa do estudante, onde estou vivendo, em croata) para pegar as chaves do meu quarto. Mas isso aconteceria apenas num mundo ideal. No mundo real, onde eu vivo, acordar cedo é algo raro e estar atrasada é a regra. Adicione a isso: fuso horário, poucas horas de sono e algumas cervejas na cabeça.

Fato é que, obviamente, eu não ouvi o despertador. Acordei assustada, ao meio dia. Fui olhar o aviso da porta, com as regras do Hostel e…descobri que deveria ter saído do quarto há 01 hora. Ops! Desespero, desespero, por dois minutos. Depois, pensei: never mind! Sabe como é…sempre se dá um jeitinho! É só fazer a louca e fingir que não sabia. Então, tomei meu banho, arrumei minhas coisas (que já estavam espalhadas pelo quarto) e desci para pedir ajuda com a mala. Ajuda com a mala? Explico: o Hostel não tem elevador e eram 03 lances de escada até meu quarto. Logo, não era uma opção carregar aquele trambolho. Como planejado, fiz a louca sobre o horário de acordar, mas nem precisava, porque a recepcionista, chamada Ivana, era muito querida! Ela disse que ficou com pena de me acordar, porque sabia que eu tinha ido dormir tarde. Já comecei, por aí, a gostar dos croatas…

Enfim, pedi para deixar a mala na recepção, por alguns instantes, até voltar com as chaves do quarto. Alguns instantes…claro! Ledo engano…

O que aconteceu foi: no Hostel, eles me explicaram como chegar em Cvjetno. Nada complicado. Desça a rua do Hostel até o final, cheguei à rua principal, pegue o tram número 17, desça, e, logo estará em Cvjetno. Fácil, né? Bem, a ida foi tranquila. Por milagre, peguei o Tram certo, paguei a passagem (por sorte! – explico depois sobre o tram e o costume de não pagá-lo), passei incólume pelo fiscal (sim, um fiscal apareceu para checar meu ticket e, acredite, eles NUNCA aparecem) e consegui me localizar no mapa (isso costuma ser um GRANDE problema, como vocês verão adiante).

Mas a volta, a volta…Bom, a volta é a história de hoje.

Peguei o tram e cheguei, tranquilamente à rua principal. Neste dia, estava muito frio e nevando. Mas tomei coragem para tirar algumas fotos, que saíram pior que o meu nariz:

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Tomei um café por ali e, foi quando descobri que os croatas, realmente, sabem o que é um bom café! Já tinha lido sobre o costume de ir a cafeterias, mas não estava certa sobre a qualidade. Eu, que gosto muito de café, especialmente o da minha avó, aprovei -e muito, o do Boban Café.  Pedi um Nescafe e…delícia!

Mas, precisava voltar para buscar a mala de Zebra. E foi aí que a saga começou. Comecei a subir uma rua, que parecia (oh, shit) aquela que eu tinha descido. Essa aqui:

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Tudo parecia familiar, então não me preocupei. Passei por essa pequena “praça”, como temos no Brasil, mas, ao menos em Zagreb, ao invés de praças, temos esses monumentos pequenos, sempre com uma cruz. A igreja católica tem uma presença muito forte por aqui, então, basicamente, as obras arquitetônicas parecem (digo parecem, porque é, realmente, uma primeira impressão) ligadas à religião. Achei bonito e, mais uma vez, resolvi sacrificar meus dedinhos com um pouquinho de frio, só pra tirar uma foto:

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Tudo muito bonito, tudo muito bom, andando bastante e pensando que estava na direção certa. Até que chego a esse lugar:

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O que dizer? Bom, posso dizer que fiquei sem palavras! Sempre tenho algo a dizer e comentar, mas, nesse momento, eu fiquei sem palavras, mesmo! Fiquei tão maravilhada com essa igreja que, até agora, estou procurando palavras para descrevê-la. Foram alguns minutos, parada, só olhando. Depois, mais alguns minutos tentando tirar uma foto decente (no que não fui muito bem sucedida, como vocês podem ver).

O problema é que, passados os minutos de admiração, bateu aquele pensamento: droga, estou perdida! Eu não havia passado por aquele lugar, na ida ao centro, então, algo estava errado!

A saída? Olhar o mapa! E aí que eu comecei a me ferrar…

Primeiro, tava um frio maldito! Tirar as mãos da luva era um sofrimento. Segundo, estava nevando. Logo, a neve ficava caindo em cima do mapa, no meu nariz, nas minhas mãos. Terceiro e, pior de tudo: eu não sei ver mapa! Se eu pego a rua certa, vou na direção errada. Se pego a direção certa, estou na rua errada. E, em hipótese alguma, posso apelar para a intuição! Eu sou o tipo de pessoa que não consegue se achar! Mas, estava sozinha, sem internet, então, o único jeito era tentar me guiar pelo mapa.

Peguei um caminho – que eu achava ser o certo – e comecei a andar. Subi morro, desci morro e, de repente, estava passando por lugares familiares. Pensei: tô mandando muito bem! Que dó, sério! De repente, passei por esse lugar:

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Se você percebeu, sim, é o pequeno monumento que mostrei antes. Sim, eu estava andando em círculos e passando, DE NOVO, pelo mesmo lugar. E, não, eu não fazia ideia de onde estava e como sair de lá.

Resolvi pegar um atalho, olhando o mapa, para sair daquelas ruas iguais. Errada de novo!

Subi um morro sem fim. Muita neve caindo, meu capuz saindo da cabeça, meu cachecol voando, minha mão congelando, meu mapa ficando molhado…Até que, de repente, mais um deslumbramento:

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Com a vista da cidade…

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Sabe quando você sente que encontrou o SEU lugar, numa cidade? Em Curitiba, eu costumo ter preguiça de ir aos lugares, mas, um lugar que eu gosto muito e me traz muita paz, quando eu vou, é o Jardim Botânico (sem os turistas, claro). Sentar embaixo de uma árvore, observar, pensar, enfim, me perder nos meus pensamentos…Foi exatamente essa a sensação que tive quando vi esse lugar. E, por mais que estivesse cheio de neve (o que não o deixa menos bonito), foi inevitável imaginá-lo com um lindo sol e muitas flores. Mal posso esperar!

Logo depois, voltou o desespero: eu estava muito no alto da cidade, porque era possível ver o teto das casas, a neve tinha piorado e eu não fazia ideia (ainda) de como chegar ao Hostel. Eu já estava andando por 01 hora. E aí você se pergunta: por que, diabos, você não pediu informação para alguém? Era quarta feira, feriado aqui também, e, por causa do frio, não tinha uma alma viva nas ruas.

Ok, keep going, vamos descer a rua:

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Bom, o problema daqui é que as ruas, nem sempre, ou quase nunca, dão acesso às ruas principais. São pequenas ruas, tão iguais, tão pequenas, dando acesso a lugares específicos. Como diz minha roommate: Poor Ligia! Andei por mais um tempo, passei por uma escola infantil, uma faculdade até, finalmente, chegar a uma rua, com uma enorme placa: City Center.

Andei por mais um bom tempo e, a essa altura, já estava ficando desesperada. Passei pela Catedral, que é LINDA, mas estava tão de saco cheio, brava, triste e desesperada, tudo ao mesmo tempo, que não tirei foto. Fico devendo.

Finalmente, entrei num café, e pedi ajuda. Uma senhora, que não sabia falar muito bem inglês e não sabia como chegar no Hostel, pegou minha mão, me levou até uma loja, do outro lado da rua (que acho que era dela) e pediu a moça que me explicasse como chegar. De modo muito simpático, essa moça fez um mapa de como chegar ao hostel, com o nome das ruas. Infelizmente, perdi o papel (eu acho). Mas adoraria mostrá-lo!

Mas, enquanto a mulher me explicava, um rapaz, vendo minha dificuldade, perguntou: Por que você não pega um taxi? É barato e você não se perde! Na hora, só respondi que estava andando por tanto tempo, que não me importava em andar mais um pouco.

Mas, depois, pensando, conclui que a verdadeira resposta para aquela pergunta envolvia muito mais que isso. Eu queria achar o caminho, primeiro, porque eu sabia que era capaz, mesmo que levasse tempo. Realmente, ir de taxi seria rápido e fácil. Mas, que lição eu tiraria de tudo isso? Qual seria o sentido de ficar andando por 02 horas, na neve, passando frio para, depois, pegar um taxi? Como seria, nas próximas vezes, se, dessa vez, eu não aprendesse a chegar onde queria? O sentido da viagem, não era, afinal, me sentir deslocada, perdida para, finalmente, encontrar a sabedoria que busco? Como diz o ditado, é errando que se aprende. Essa viagem não foi pensada para dar certo. Digo, a ideia de ir para na CROÁCIA, foi, justamente, para me perder e, no final de tudo, me achar. E foi o que aconteceu. Primeiro, porque passei por lugares lindos e passei a me identificar mais com a cidade.

Vi, andei, deslumbrei! E como é bom se deslumbrar, mesmo que seja com um banco de praça, no meio da neve! Depois, porque, ao final do dia, eu consegui me achar, finalmente…tanto no sentido físico, quanto filosófico.

Resumindo o conto: tentei seguir as instruções da mulher, mas foi impossível. Aliás, acho que ela, sem querer, me mandou pro lugar errado. Não sei como, mas eu consegui achar o caminho! Milagrosamente, as ruas passaram a fazer sentido. Fui andando, achando as ruas e, quando vi, tinha passado o Hostel, alguns metros, porque estava olhando o mapa! Hahaha. Ops!

Entrei no Hostel, expliquei o porquê da minha demora (saí do hostel às 13h e voltei às 17h), ri um pouco com o pessoal -que, a esta altura, já tinha percebido que eu não era muito normal-, tomei um café, usei o wi-fi para avisar minha mãe que, sim, eu estava viva e, finalmente…rumei para Cvjetno, minha nova casa. Aqui, conheci a Valentina, croata, minha nova roommate. Mas isso é assunto para um outro dia.

 Por enquanto, deixo vocês com a foto do meu mapa, ao final do dia, e com a lição que tirei de tudo isso: é preciso se perder para, finalmente, se encontrar. Espero que, agora, faça um pouco mais de sentido para vocês. Porque, pra mim, faz todo o sentido!

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3 comentários

  1. Ah, menina! Difícil acreditar que você tenha se perdido tanto assim. Mas tão bom de ler sua narrativa, ilustrada com fotos tão lindas, que até penso que você se perdeu de propósito, só pra explorar um pouco mais as novidades… Ao contrário de você, eu sempre fui muito orientada em novos lugares. Primeiro, observar (ou perguntar, se não deu tempo de ver) onde o sol nasce e onde se põe. Pronto. Já tenho as coordenadas principais. O mapa é só mais uma brincadeira. Eu adoraria ter passado por essa experiência. Hoje em dia isso é impossível: não tenho energia nem pernas/pés para tanto caminhar… Teria pego um táxi. Bjs.

  2. Deixe-me ir
    Preciso andar
    Vou por aí a procurar
    Rir prá não chorar…(2x)

    Quero assistir ao sol nascer
    Ver as águas dos rios correr
    Ouvir os pássaros cantar
    Eu quero nascer, quero viver…

    Deixe-me ir
    Preciso andar
    Vou por aí a procurar
    Rir prá não chorar…

    Se alguém por mim perguntar
    Diga que eu só vou voltar
    Quando eu me encontrar…
    Esta musica da Marisa Monte traduz tanta coisa. Bjs

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